Considerações sobre a demissão do jornalista da Inter TV em Campos dos Goytacazes

ALEXANDRO CHAGAS FLORENTINO, direção municipal do PSTU

Jornalista da Inter TV, afilidada da Rede Globo em Campos, foi demitido sem receber, ao menos, uma justificativa formal da empresa. As evidências apontam que sua demissão foi devido à veiculação de uma matéria que denuncia o fato da Prefeitura de Campos comprar, por meio de licitação, da Expoente (empresa privada) livros didáticos oferecidos e distribuídos gratuitamente pelo Ministério da Educação (MEC).
A demissão do jornalista Luiz Gonzaga Neto, que apresentava o jornal da Inter TV serve para pensarmos em duas questões estreitamente imbricadas: a perversa relação dos meios de comunicação com o poder econômico e político; e quem, efetivamente, é o profissional jornalista.
Bom, para a primeira questão há diversos exemplos. Exemplos, inclusive, bem parecidos com o que determinou a demissão do referido jornalista. Afinal, os veículos de comunicação são empresas mercantilistas e gananciosas por abocanhar grandes somas em dinheiro. E, para tal, travestem-se dos velhos Mitos da imparcialidade, objetividade e distanciamento, dizem prestar um serviço público de ampla difusão de assuntos e verdades sobre supostos fatos, sendo que são os comandantes dos veículos de comunicação os responsáveis pela determinação do que deve ser um fato noticiável e a abordagem a ser dada à notícia.
Além de, corriqueiramente, o que vai determinar a escolha de um assunto para virar fato noticiável e a abordagem a ser dada a ele são os vínculos políticos e econômicos estabelecidos pela empresa de comunicação. E quando o roteiro teima em contradizer os laços umbilicais da “imprensa” com os que estão ditando o que deve e o que não deve ser dito, a corda arrebenta no lado mais fraco: o trabalhador!
Foi exatamente o que aconteceu com Luiz Gonzaga Neto após noticiar e fazer um comentário sobre as irregularidades cometidas pelo casal Garotinho na prefeitura de Campos dos Goytacazes, que vão muito além de realizar uma escusa compra de livros didáticos de uma empresa privada, foi o que vimos também na administração dos recursos recebidos para a manutenção dos Centros de Atendimento Psicossocial.
Dentro deste contexto surge a segunda questão. O jornalista é, antes de tudo, um trabalhador, mas parece que muitos não possuem esta clareza (não posso afirmar que é o caso do jornalista demitido da Inter TV, pois não o conheço). E a falta desta clareza pode ser um reflexo na inexistência de consciência da condição de trabalhador precarizado e consequente falta de mobilização destes trabalhadores enquanto classe.
Nas empresas de comunicação paira um grande engodo que faz o trabalhador crer que a empresa está a serviço do bem público e supostamente comprometida com a verdade. Deste modo, cria-se condição propícia para se acreditar no falso clima de “família” em luta pela “verdade dos fatos” e na possibilidade de serem amigos do “patrão”. Quando, na verdade, estão sendo explorados com baixos salários, condições precárias de trabalho e nenhuma garantia de que terão seus empregos mantidos caso noticiem algo que realmente esteja atrelado a verdade, assim, contrariando os vínculos políticos e econômicos dos patrões.
Certamente, o patrão não pensará duas vezes em deserdar um “membro da família” quando o assunto diz respeito ao volume de dinheiro que entra em seus bolsos.
Assim sendo, faz-se necessário lutar para que os trabalhadores da imprensa tenham condições adequadas de trabalho e possam exercer de maneira plena seus direitos de informar e opinar sobre a realidade de nossa sociedade. Para isso, não é admissível aceitar que patrões e detentores de poderes econômicos e políticos possam exerçer pressões a fim de coagir e fazer com que os profissionais se calem diante de questões sociais que urgem por virem a tona.
Nós do PSTU defendemos uma imprensa de livre opinião dos jornalistas, esses trabalhadores devem, enquanto classe, se organizar para lutar por condições econômicas e morais mais dignas, é preciso construir instrumentos de mídia e imprensa que estejam sob o controle dos trabalhadores em comunicação, só assim, poderemos quebrar o monopólio da comunicação das grandes agências multinacionais e acabar com os desmandos das empresas locais dirigidas por políticos que atacam os trabalhadores quando suas maracutaias são desvendadas.